Fevereiro de 2026 por Ana Carrisso
“Onde há muita propriedade, há muita desigualdade. Por cada homem muito rico, deve haver pelo menos quinhentos pobres, e a riqueza de alguns implica a indigência de muitos”. Esta frase foi escrita por Adam Smith na sua obra “A riqueza das nações”, cuja publicação completa 250 anos em 2026. No entanto, é uma frase que hoje poderia ser proferida por qualquer político ou influencer, e que poderíamos perfeitamente encontrar num reel do Instagram, prova de que o debate sobre a desigualdade continua hoje tão vivo como no século XVIII, apesar de toda a mudança que a estrutura da economia sofreu desde então.
Em setembro de 2025 foi publicado o estudo “Desigualdade de riqueza: análise das disparidades socioeconómicas na UE”, da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho (Eurofound), que é a agência tripartida da UE que fornece conhecimento para ajudar a desenvolver melhores políticas sociais, de emprego e laborais. Assinado pelo investigador Carlos Vacas-Soriano, o estudo aprofunda a forma como aumentaram os níveis de desigualdade entre os Estados-Membros da UE entre 2010 e 2021, a partir de dados do Banco Central Europeu (BCE).
Apresenta alguns dados reveladores: por exemplo, segundo o índice de Gini (em que o valor mais próximo de 0 denota igualdade perfeita e o mais próximo de 100, desigualdade perfeita), revela uma distribuição muito desigual da riqueza na Europa, sendo a Alemanha o país com maior desigualdade, seguida de Espanha e da Irlanda. No entanto, os países onde a desigualdade mais desceu no período estudado foram a Letónia, a Irlanda, a Áustria e a Polónia. No caso de Portugal, a desigualdade reduziu-se apenas ligeiramente, sem apresentar uma tendência clara ao longo da década.
No artigo anterior detalhávamos como o índice de desigualdade é uma ferramenta útil para medir o grau de prosperidade económica dos habitantes de um país. Agora, os números por si só não são suficientes; é importante saber interpretá-los para determinar que implicações têm dados que são puramente estatísticos sobre a vida real das pessoas.
Um nível de rendimentos diferente impacta diretamente o bem-estar dos indivíduos, não apenas ao limitar os bens e serviços a que podem aceder, mas também, de forma importante, ao condicionar as decisões presentes e futuras que possam tomar sobre as suas próprias finanças. Um menor acesso a oportunidades não só perpetua a desigualdade, como também pode ser interpretado como uma alocação ineficiente dos recursos humanos de que uma nação dispõe e, em último caso, pode afetar negativamente o crescimento económico. Dito de outra forma, quanto mais limitadas forem as decisões, maior será a dificuldade para que o elevador social funcione e, por conseguinte, menor será a capacidade de progresso da sociedade no seu conjunto.
Podemos observar um exemplo prático disto em pleno 2026 ao analisar a estrutura da economia norte-americana: o impacto da inflação e da aplicação de tarifas não afetou de igual modo todos os setores económicos nem, em consequência, todas as camadas da população. De facto, atualmente enfrentamos um crescimento em forma de K: a parte da população com maior nível de rendimento e os setores ligados à tecnologia continuam a mostrar capacidade de investimento e consumo, enquanto as rendas mais baixas e os setores mais tradicionais (como a construção, por exemplo) atravessam dificuldades económicas.
Vivemos tempos em que o valor da meritocracia foi posto em causa. Esta forma determinista de pensar, segundo a qual a trajetória de vida e profissional dos indivíduos está condicionada pelo seu nível de rendimentos, também está a contribuir para o mal-estar social e para a desconfiança nas instituições públicas. Pudemos observar nos últimos três anos como o crescimento da desigualdade pode provocar fraturas profundas na sociedade, com o castigo dos eleitores nas urnas em países de todo o mundo, dos EUA à Índia, passando pelo Canadá, Reino Unido, Argentina ou Japão, todos com um elemento em comum: a perda de poder de compra. Por isso, é necessário monitorizar de perto a evolução dos níveis de desigualdade, tanto nas sociedades em vias de desenvolvimento como nas democracias liberais ocidentais.