Como o envelhecimento da população está a mudar a economia global

Mário Pires | Schroders

Head of Portugal
Neste cargo, Mário Pires é responsável por assegurar os interesses e as necessidades dos clientes intermediários e institucionais em Portugal, bem como pelo crescimento do negócio na região.

Julho de 2026 por Mário Pires

O mundo está a atravessar profundas mudanças a nível demográfico. Estas mudanças repercutem-se na população, na desigualdade, na pressão sobre os mercados de trabalho, na migração e nas finanças públicas. Além disso, o crescente envelhecimento da população coloca desafios e oportunidades, repercutindo-se na mão de obra e nos sistemas de saúde. Estas mudanças marcam a trajetória das sociedades e das economias de todo o mundo.

Assim, à medida que a geração baby boom vai chegando à idade da reforma, os países ficam sem jovens suficientes para a substituir no mundo laboral. Esta escassez de trabalhadores poderá afetar sensivelmente a inflação e o crescimento económico com a subida dos salários.

Neste sentido, distinguimos três consequências-chave que este processo está a ter para a economia e os mercados:

  • O menor número de trabalhadores disponíveis implica uma escassez de talento nas equipas

Num mercado de trabalho em contínua transformação, impulsionado pela automatização que redefine as funções profissionais, o talento altamente qualificado surge como a principal aspiração estratégica de numerosas empresas. Conscientes da necessidade imperiosa de se diferenciarem num ambiente competitivo, as empresas competem ativamente para incorporar especialistas que não só possuam competências excecionais, como também aportem valor diferenciador. Assim, a escassez desse talento consolidou-se como um desafio estrutural de longo prazo.

Além disso, se se confirmar a expectativa de redução da população mundial e desaceleração do crescimento da população ativa, o número de trabalhadores disponíveis diminuirá, fazendo com que as empresas se vejam ainda mais pressionadas a competir pelo talento.

  • Aumento das pressões inflacionistas

A escassez de mão de obra consolidou-se como um fator estrutural-chave no aumento das pressões inflacionistas a nível global, ao impulsionar tanto as expectativas salariais como os custos de produção.

Por um lado, ao disporem de menos trabalhadores, as empresas terão de aumentar os salários para atrair o talento adequado, e isso agravará a inflação. Os trabalhadores pedirão aumentos salariais para conseguirem fazer face a um custo de vida cada vez mais elevado. E as empresas não poderão compensar estes custos facilmente através da deslocalização e da migração, que agora são duas opções que perderam atratividade ou viabilidade política.

Por outro lado, para salvaguardar as suas margens de lucro, as empresas poderão transferir o aumento dos custos salariais e dos materiais para os consumidores finais, o que contribui para elevar a inflação.

  • Aumento dos investimentos em tecnologias para incrementar a produtividade

As empresas terão de pensar em tecnologias que aumentem a produtividade e investir nelas para conservar as suas margens de lucro, dando um papel de destaque à robótica e à IA. A automatização elimina a necessidade de os humanos realizarem tarefas rotineiras como introduzir dados ou responder a consultas padrão por correio eletrónico, enquanto a robótica transformou a indústria transformadora. A IA generativa já está a proporcionar a próxima vaga de inovação ao realizar os processos cognitivos dos trabalhos tradicionais de “colarinho branco”, como a análise de dados, a resolução de problemas e a tomada de decisões. Os aumentos de produtividade que estas tecnologias podem proporcionar estão a ajudar a compensar alguns dos entraves ao crescimento e as pressões inflacionistas criadas pela escassez mundial de trabalhadores.

Em conclusão, o envelhecimento populacional representa um desafio estrutural multifacetado para a economia global, com uma redução da força de trabalho que trava o crescimento e pressiona a inflação, ao mesmo tempo que gera desequilíbrios entre poupança e consumo. Tudo isto se soma aos crescentes riscos geopolíticos, elevando as probabilidades de entrarmos num perigoso período de estagflação (estagnação ou queda do crescimento e inflação elevada).