A desigualdade económica e os seus efeitos no desenvolvimento

André Themudo | BlackRock

Líder dos segmentos de Wealth e Asset Managers na Península Ibérica
Desenvolve relações com gestores de ativos espanhóis, portugueses e de Andorra, bancos privados e de retalho, family offices e plataformas de distribuição. Isto inclui a distribuição de Mutual Funds, Estratégias de Indexação e Soluções de Investimento para clientes de wealth.

Fevereiro de 2026 por André Themudo

A desigualdade económica refere‑se à forma como o rendimento, a riqueza e o acesso a oportunidades se distribuem entre indivíduos e grupos dentro de uma sociedade. Apesar do crescimento económico global nos últimos anos, muitos países continuam a enfrentar níveis elevados de desigualdade, com implicações significativas para o desenvolvimento económico e social. Em termos práticos, a desigualdade traduz‑se em diferenças substanciais nos rendimentos e na acumulação de riqueza, condicionando o acesso de muitos cidadãos à educação, saúde e outras oportunidades fundamentais, essenciais para a participação plena no mercado de trabalho e para o desenvolvimento do capital humano.

Um dos indicadores mais amplamente utilizados para medir estas disparidades é o coeficiente de Gini, que varia entre zero, correspondente à igualdade total, e 100, representando desigualdade máxima. Em Portugal, dados oficiais indicam que este índice situou‑se em cerca de 30,9% em 2024, mantendo a tendência de redução registada nos últimos anos e evidenciando uma melhoria relativa na distribuição de rendimentos.

Consequências socioeconómicas

A desigualdade tem efeitos profundos e interligados na sociedade e na economia. A nível social, grandes disparidades podem comprometer a coesão, gerar divisões e reduzir a confiança nas instituições, criando tensões que desencorajam o investimento produtivo e limitam o crescimento económico sustentável. A nível económico, a desigualdade influencia a capacidade de consumo e a procura agregada. Quando a riqueza está concentrada nos segmentos mais elevados da população, estes tendem a poupar uma parte significativa dos seus rendimentos, ao passo que os grupos com rendimentos mais baixos destinam a maior parte dos seus recursos ao consumo básico. Uma distribuição de rendimentos mais equilibrada impulsiona o consumo interno, estimula a procura de bens e serviços e fomenta a produção e o emprego.

A desigualdade afeta também o capital humano e a mobilidade social. As famílias com rendimentos mais baixos têm, tendencialmente, menor capacidade para investir na educação e na saúde dos filhos, o que gera uma força de trabalho menos qualificada e menos produtiva e compromete a competitividade e o crescimento económico. Em sociedades altamente desiguais, a posição económica de um indivíduo tende a depender em grande medida da sua origem familiar, perpetuando ciclos de pobreza e limitando a mobilidade intergeracional. A subutilização de talentos limita a inovação e a produtividade da economia como um todo.

Políticas públicas e perspetivas

A existência de desigualdades acentuadas condiciona de forma significativa a eficácia das políticas públicas de redistribuição. As transferências sociais, que incluem subsídios de desemprego, apoios familiares, pensões e outros mecanismos de proteção social, têm um papel estabilizador fundamental, permitindo reduzir a pobreza e atenuar as disparidades económicas entre os diferentes segmentos da população. Estas medidas não só garantem um nível mínimo de segurança financeira às famílias mais vulneráveis, como também contribuem para a coesão social e para a estabilidade económica a longo prazo. Estratégias integradas que combinem transferências monetárias, incentivos à inclusão no mercado de trabalho, formação profissional e acesso facilitado a serviços de educação e de saúde têm o potencial de amplificar o impacto destas políticas.

Em termos estratégicos, a monitorização rigorosa de indicadores sociais e económicos disponibilizados pelo INE, Eurostat e outros organismos de referência é essencial para orientar políticas públicas que promovam crescimento inclusivo e sustentável. Abordagens integradas, combinando educação, formação profissional, políticas de emprego e redistribuição eficaz, podem mitigar os efeitos da desigualdade, fortalecer a coesão social e maximizar o potencial de crescimento económico a longo prazo.