Os conceitos essenciais para entender as finanças públicas

Javier García Díaz | BlackRock

Head of Wealth Sales, BlackRock Iberia
Cobre o segmento de wealth, tanto na perspetiva ativa como na perspetiva de indexação. Lidera as iniciativas Alpha para o mercado ibérico e é o especialista em investimento ativo para o segmento de wealth.

Maio de 2026 por Javier García Díaz

O presente documento aborda os conceitos fundamentais das finanças públicas e os indicadores-chave que permitem avaliar a saúde orçamental e a sustentabilidade económica do Estado. A análise do saldo primário, do défice orçamental, da dívida pública e da proporção entre a dívida e o PIB proporciona uma visão clara do equilíbrio das contas públicas e do respetivo impacto na confiança dos investidores e na capacidade de financiamento do país.

Saldo primário 

 O saldo primário corresponde à diferença entre a receita e a despesa do Estado no seu funcionamento corrente, excluindo os encargos com juros da dívida pública. Quando este saldo é negativo, significa que as receitas não são suficientes para cobrir as despesas primárias, o que obriga a uma revisão da política orçamental. Este indicador é particularmente relevante para avaliar a disciplina orçamental de curto prazo e a capacidade do Estado para financiar as suas operações sem depender do custo da dívida acumulada.

Défice orçamental e dívida pública

O défice orçamental é um conceito mais abrangente que compara a totalidade das receitas com a totalidade das despesas do Estado, incluindo os juros associados à dívida pública. Ainda que o saldo primário seja positivo, o défice orçamental pode permanecer negativo se os encargos com juros forem elevados. A nível internacional, este indicador é utilizado para avaliar a sustentabilidade das contas públicas e o cumprimento das regras orçamentais, refletindo a real necessidade de financiamento adicional por parte do Estado.

A dívida pública corresponde ao montante total que o Estado deve aos seus credores, acumulado ao longo do tempo e inclui os empréstimos contraídos e respetivos juros. Embora se trate de um instrumento essencial para financiar políticas públicas e responder a necessidades económicas, acarreta custos significativos. A principal diferença entre estes dois conceitos está no horizonte temporal: o saldo primário reflete a situação financeira a curto prazo, ao passo que a dívida pública resulta de decisões acumuladas ao longo dos anos. Ainda assim, estão diretamente ligados: défices sucessivos tendem a aumentar a dívida, enquanto um maior controlo das contas públicas ajuda a travar o seu crescimento. Além disso, taxas de juro mais elevadas aumentam o custo da dívida, agravando o seu peso.

Níveis elevados de défice ou de dívida podem afetar a confiança dos investidores e a credibilidade do país, aumentando os riscos económicos. Acresce que os encargos com juros podem limitar a capacidade de investimento em áreas essenciais, como a saúde, a educação ou as infraestruturas, tornando essencial uma gestão equilibrada das finanças públicas.

Rácio da dívida em percentagem do PIB  

A percentagem da dívida pública em relação ao PIB — o rácio dívida/PIB — mede o peso da dívida acumulada face à capacidade produtiva da economia. Este indicador compara o valor total da dívida pública com a riqueza gerada pelo país num ano, permitindo avaliar a sua sustentabilidade. Um rácio elevado indica que a dívida representa um encargo significativo para a economia, podendo aumentar a perceção de risco entre investidores e influenciar o custo de financiamento do Estado. É um dos principais indicadores utilizados por instituições financeiras, agências de rating e organismos internacionais para avaliar a robustez das finanças públicas.

Embora distintos, estes conceitos estão profundamente relacionados. O saldo primário reflete a situação atual das contas públicas, o défice orçamental traduz o equilíbrio global e a dívida pública resulta do efeito acumulado de decisões passadas. Défices sucessivos tendem a aumentar a dívida, enquanto uma gestão orçamental prudente contribui para estabilizar o seu crescimento. Por outro lado, taxas de juro mais elevadas aumentam o custo da dívida, agravando o défice e reforçando a necessidade de disciplina orçamental.

Níveis elevados de défice ou de dívida podem afetar a confiança dos investidores e a credibilidade do país, com impacto direto nos custos de financiamento e na capacidade de resposta a choques económicos. Uma gestão equilibrada das finanças públicas é, por isso, determinante para garantir a estabilidade macroeconómica e a sustentabilidade a longo prazo.